Análise | GRIS é uma obra de arte sobre superar a depressão

É difícil falar de GRIS, game desenvolvido pelo Nomada Studio e distribuído pela Devolver Digital, sem dar muitos detalhes sobre a experiência. Para ajudar, o game foi lançado para Windows, macOS e Nintendo Switch apenas, então a parcela de jogadores que terá o prazer de experimentar essa aventura será relativamente menor. Todavia, se tiver oportunidade, adquira o título sem pensar duas vezes. Se permita sentir esse jogo, da mesma forma que eu vou me permitir falar dele nesta análise sem hesitar.

GRIS é daquele tipo de jogo que você vai juntando as peças e preenchendo as lacunas com a sua imaginação. Pessoalmente, eu adoro obras que brincam com o subjetivo, dando margem para interpretações diversas e, aqui, este é o caso. Não há falas no jogo e pouquíssimo texto aparece ao longo da jogatina – sumariamente, você irá ler apenas instruções na tela. Isso porque o game brinca com a arte, seja ela gráfica, auditiva ou interativa. GRIS é, portanto, uma peça artística em sua mais pura forma, só que entregue na forma de um game.

Leva algum tempo para que você comece a entender o que está acontecendo, mas se verá tão imerso e cativado nos belíssimos gráficos de GRIS que dificilmente irá querer parar de jogá-lo e “ver onde isso vai dar”. Isso sem contar a trilha sonora, completamente adaptativa, cuja melodia se transforma conforme você explora e/ou descobre os cenários. Além disso, as interações da protagonista, Gris, com os personagens e ambientes são sensíveis e memoráveis; tudo isso embalado em emoção, sentimento e delicadeza.

Se você estiver procurando por um jogo de ação desenfreada, que te dá todos os objetivos ou as instruções mastigadas, sinto muito (muito mesmo), mas sua princesa está em outro castelo. GRIS é um jogo de plataforma e exploração. Pense na contemplação dos cenários e das interações de Journey, com as metáforas de Limbo e a animação e a trilha sonora de Hollow Knight e Child of Light, respectivamente. Pronto, eis GRIS.

A jogabilidade é bastante simples: no teclado o espaço pula, o A e o D movem Gris para trás ou para frente, e o K e o L revelam as habilidades da protagonista. Por sinal, seus poderes são manifestados em seu vestido, então quando executar um pulo duplo ou se transformar em pedra, a roupa dela se adequará à situação, tomando a forma pedida – quadrada para simbolizar uma rocha ou asas para representar um salto maior, por exemplo. E estes detalhes são apenas referentes às mecânicas. A história, por sua vez, apresenta um outro nível de cuidado, especialmente na maneira como aborda temáticas sérias sem perder a graciosidade e a sensibilidade.

O triunfo da tristeza

Gris é uma garota que se vê, de repente, sem cores e sem vozes. Seu mundo rui e ela cai (e cai fundo), de maneira inevitável, em uma terra branca, onde se vê fraca e desnorteada. Ela precisa, portanto, se recompor. Seguir adiante é a única alternativa. Explore os cenários e vá coletando pequenas estrelas igualmente perdidas – aqui, mementos representados por pequenos globos luminosos.

(Imagem: Nomada Studio)

Essas memórias serão as principais responsáveis por guiar a protagonista em sua aventura, mostrando a ela o caminho, literalmente, que ela deve seguir para conseguir se recuperar, além de conceder a ela as habilidades necessárias para alcançar o local que precisa chegar. E enquanto desbrava esse mundo incrível, Gris vai transformando o cenário, agregando cores diferentes e, por tabela, sobrepujando tabelas conforme as tintas se misturam. Em outras palavras, a vida vai novamente ganhando sentido, brilho, cor.

Se uma palavra pudesse definir a história de Gris, ela certamente seria “sutileza”, já que seu grande triunfo é justamente abordar temáticas como a depressão, o luto e a dor nos detalhes. O jogo mostra e te faz ouvir todos esses tópicos por meio da arte, e você vai juntando as peças e interpretando a jornada – o início, o meio e o final – da maneira que preferir, muito embora não haja segredos quanto ao que o jogo quer verdadeiramente mostrar: a protagonista está presa em um mundo de tristeza, seja esta sua ou de sua mãe; e precisa superar esse momento e seguir em frente.

GRIS é um jogo curto, porém simbólico e extremamente artístico. A cada nova exploração, a cada novo recomeço, você percebe novos detalhes e agrega novas representações a cada um dos detalhes que envolvem a narrativa e os cenários. As tonalidades que colorem o mundo, os mementos coletados, os símbolos nas paredes, os trejeitos da protagonista, os “inimigos” e “obstáculos” pelo caminho… Toda vez que você jogar ou rejogar esse game, certamente vai ver tudo através de ópticas diferentes.

Além disso, como já comentado por aqui, há o estilo gráfico que transforma toda a jogatina em uma animação 2D belíssima e a trilha adaptativa e intimista, a qual, aliada a uma sensível edição de som e uma graciosa mixagem de áudio, torna a composição e direção das músicas de GRIS uma das melhores de 2018. E todos esses detalhes, além daqueles que você vai enxergar somente na segunda ou terceira jogatina, é que tornam este game tão único. Mas é isso, afinal, que é arte: uma grande mistura de técnicas e conceitos que, juntos, florescem a imaginação e a cognição.

GRIS está disponível para PC, macOS e Nintendo Switch. No Canaltech, o jogo foi analisado com cópia gentilmente cedida pela Devolver Digital.

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