Crítica | O Retorno de Mary Poppins: quase como saudade

Há alguns anos, Hollywood (para não dizer somente a Disney) vem investindo pesado em remakes, reboots, sequências… Se, por um lado, é uma forma de trazer de volta o que já deu muito certo e conquistar parte do público através da nostalgia, por outro pode surtir um efeito de “mais do mesmo”. “Sempre mais do mesmo. Não era isso que você queria ouvir?”, diria Renato Russo.

Mas se há filmes que parecem intocáveis e pensar em um remake deles soa como agressão para os puristas, há outros que parecem gritar por uma imersão maior, uma abertura de possibilidades, um desenvolvimento mais profundo dos seus personagens. O Rei Leão talvez pertença aos que parecem intocáveis (teremos certeza ou não em 2019). Mogli: O Menino Lobo talvez pertença aos que gritam – tanto que o live action de 2016 (não o lançamento recente da Netflix), dirigido por Jon Favreau, tem qualidades que a animação de 1967 parecia pedir (e a animação já é uma releitura, pois há uma produção bem interessante de 1942, que concorreu a quatro Oscars).

Cuidado! Daqui em diante esta crítica pode conter spoilers!

E Mary Poppins?

É difícil classificar o clássico de 1964 como merecedor de retoques. Mais difícil ainda deve ter sido para o diretor Rob Marshall ao receber em mãos um roteiro que, além de ser assumidamente uma sequência, mais parece uma espécie de remake. Em O Retorno de Mary Poppins, quase todas as indicações são como há mais de 50 anos: o sujeito serelepe que percorre as ruas e está sempre de bom humor, as crianças de educação hiperpolida, o pai que não acredita em fantasia e acabou se esquecendo de como é ter uma infância, o banqueiro ganancioso…

(Imagem: Divulgação / Disney Buena Vista)

Marshall, dessa forma, conduz o filme como se estivesse regravando o original. E isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Ao passo que o diretor entende que o primeiro filme é território praticamente sacro para os fãs, ele releva as mudanças sofridas pelo cinema durante as décadas que se seguiram.

Assim, essa continuação é ao mesmo tempo absolutamente respeitosa e dolorosamente engessada. Nesse sentido, toda a fantasia que funcionava lindamente e que, levando em consideração a época, continua funcionando, ganha ares sisudos. A impressão pode ser a de estar assistindo a Mary Poppins sem a leveza de Mary Poppins, com o peso de um Chicago (o filme que deu super notoriedade a Marshall no início dos anos 2000 – que, em resumo, trata de duas assassinas que competem pelo estrelato em um circo midiático).

The Place Where Lost Things Go

Mas há algum esforço no roteiro de David Magee. Mais carregado do que seu predecessor, ele trata da problemática da morte como um confronto muito íntimo de Michael Banks (Ben Whishaw) e tenta, de forma leve, circundar a vida das crianças com esse ponto. A música The Place Where Lost Things Go é de uma delicadeza enorme ao tratar de um tema tão sofrido e quase faz jus ao mundo musical ao qual pertence.

Ben Whishaw, por sinal, protagoniza um momento que seria carregado de muito mais emoção caso a direção se deixasse levar: Quando sua personagem (o Michael Banks) escuta a dita música na voz dos seus filhos, o corpo parece torcer para que as lágrimas rolem – ou, ao menos, que escorram com a maior das sinceridades.

O problema é que lá está a sisudez de Rob Marshall, transformando uma cena com potencial emocional gigante em uma construção sólida que grita por mais paixão. Não que o diretor não tenha amor pelo que faz – nem cabe tal julgamento –, mas fica a impressão de que o seu cinema não é o cinema da babá que voa com um guarda-chuva e transforma tudo em um mundo mágico.

(Imagem: Divulgação / Disney Buena Vista)

Em se falando das canções, igualmente fica um sentimento de formalidade exarcebada. Por mais que o elenco se esforce, músicas como a própria The Place Where Lost Things Go ou mesmo a bela A Conversation (interpretada com muito carinho por Whishaw) jamais chegam perto do que foi (e é) Supercalifragilisticexpialidocious ou a vencedora do Oscar de Melhor Canção Chim Chim Cher-ee. O que se dá, justamente, pela falta de magia de um filme que se apega mais ao real do que ao universo de onde veio. São canções com letras que dizem muito, que agregam um valor real e peso à história, mas com melodias que dificilmente serão lembradas após o término do filme – o que é muito pouco para uma produção musical que se coloca como sequência (muito perto de um remake) de um clássico.

Emily Blunt… Emily Blunt… Emily Blunt…

De qualquer forma, Emily Blunt, talvez a pessoa com o fardo maior nas costas – o de substituir a lendária Julie Andrews –, não somente é o maior destaque de O Retorno de Mary Poppins, como consegue sustentar a sua personagem em um filme que luta para ser menos mágico. Ela (Blunt) é o próprio retorno de Mary Poppins por meio de uma atuação que entende a Poppins de 1964 como um ser maior do que o próprio tempo, um símbolo.

Às vezes, é possível compreender a protagonista como uma resistência, uma força que, dentro de uma metalinguagem, não deixará tudo tomar ares de realidade: a magia jamais deve deixar de existir. Blunt é, em sua competência, maior que o filme e a maior homenagem que o original e a própria Andrews poderiam receber.

(Imagem: Divulgação / Disney Buena Vista)

Quase como saudade

Mary Poppins permanece intocável após essa sequência. Ela (a sequência em questão) é um trabalho válido, sem dúvida. Há muito esforço envolvido para reconstruir um mundo à altura. Só é uma pena que o próprio diretor tenha tentado trazer toda a vida loucamente fantasiosa para uma realidade tão sisuda como o cinza do céu londrino (bem exposto inicialmente). Até mesmo os momentos mais mágicos, como aqueles que misturam live action e animação, surgem quase que na corda bamba entre se aceitar de uma vez ou manter os pés firmes no chão. O Retorno de Mary Poppins não é mais do mesmo. Ele é menos do mesmo – e isso pode ser tanto ruim quanto bom, a depender do quanto se está disponível a aceitar.

(Imagem: Divulgação / Disney Buena Vista)

No mínimo e felizmente, o elenco afinadíssimo (Marshall é sempre de extrema competência na direção de atores) consegue transmitir o que é quase intransmitível: Supercalifragilisticexpialidocious. E não há interpretação que traduza o universo contido nessa palavra. Quase como saudade em português.

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