Funcionários protestam contra projeto chinês de versão do Google com censuras

Brasil Econômico

No começo de agosto, uma reportagem investigativa do The Intercept denunciou que o Google estaria desenvolvendo uma versão censurada do site, de acordo com polêmica legislação chinesa para funcionar no país

 Fonte anônima teme que a versão censurada do Google  sirva de modelo para outros países

Fonte anônima teme que a versão censurada do Google sirva de modelo para outros países

Foto: shutterstock

Funcionários do Google estão se organizando para protestar contra a versão censurada do Google, que deve ser lançada na China em breve e é chamada de “Dragonfly”. De acordo com uma reportagem realizada pelo portal internacional BuzzFeed News, publicada nessa quinta-feira (16), a categoria exige transparência e confronta a ética da administração da empresa.

Tudo começou no dia 1º de agosto, quando o site The Intercept publicou uma reportagem investigativa sobre o projeto Dragonfly. Segundo o portal, a versão censurada do Google seguiria leis rígidas da China, barrando conteúdos relacionados aos direitos humanos, à democracia, à religião e aos protestos pacíficos.

De acordo com os documentos confidenciais do Google, supostamente conferidos pelo The Intercept, assim que um usuário ‘der uma googlada’, os sites banidos pelo governo chinês serão retirados da primeira página.

Entretanto, um “aviso de isenção de responsabilidade” aparecerá quando houver resultados de pesquisa fora do ar por quesitos legais. Entre os sites que seriam banidos está a Wikipédia, enciclopédia online colaborativa.

Uma fonte, que não quis se identificar, revelou que a versão modificada do site de buscas ficaria restrita a centenas de pessoas, e que o “Google não está se preocupado eticamente ou moralmente sobre o seu papel na censura”.  A fonte ainda acrescentou temer que o projeto Dragonfly se torne um modelo para outros países.

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Pedido de revisão ética sobre versão censurada do Google

Categoria diz que a maioria dos funcionários soube da versão censurada do Google pelos noticiários

Categoria diz que a maioria dos funcionários soube da versão censurada do Google pelos noticiários

Foto: shutterstock

Diante da descoberta do projeto secreto, funcionários estão repassando uma carta – acessada pelo BuzzFeed News – que pede pela revisão ética com representantes dos trabalhadores comuns, nomeação de ouvidores e uma avalição ética dos projetos da empresa, incluindo Dragonfly e Maven, que é um contrato do Google com o Pentágono para construir tecnologia de drones assistida por inteligência artificial (IA).

“Muitos de nós acreditamos que o Dragonfly representa ameaça à liberdade de expressão e dissidência política em nível global, além de violar nossos princípios de IA”, aponta a carta que já foi assinada por mais de 1.400 funcionários.

No escrito, a categoria ainda aponta “como empresa e como indivíduos temos a responsabilidade de usar esse poder não para apoiar o controle social, a violência e a opressão, mas, sim, para melhorar o mundo”.

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Mais reações sobre a versão censurada do Google

Segundo o The Intercept, a versão censurada do Google seria disponível apenas para smartphone

Segundo o The Intercept, a versão censurada do Google seria disponível apenas para smartphone

Foto: shutterstock

Alguns dias depois da notícia do The Intercept, um funcionário do Google, que nasceu em Pequim e está na empresa há mais de 10 anos, compartilhou anonimamente o post com o BuzzFeed News.

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p class=””>Na publicação, ele conta que “funcionários que pensam que a empresa pretende lutar contra a censura estão sendo ingênuos, porque a tecnologia, na China, é utilizada para vigiar e controlar os seus cidadãos”.

Em um segundo post compartilhado anonimamente com o BuzzFeed News, um funcionário que trabalhou no polêmico projeto conta que planeja sair do Google não só porque lhe pediram para manter o sigilo do público, mas também de seus colegas de trabalho.

“A parte que mais me afetou não foram os detalhes do projeto em si, mas o sigilo em torno dele. Parte da razão pela qual eu entrei para trabalhar no Google em período integral foi a cultura aberta da empresa, na qual eu vivenciei em meus estágios”, escreveu.

Porém, nem todo mundo concorda com o chinês, a gerente de programas do Google, Allison Day, aponta que a construção de um mecanismo de busca, mesmo que censurado, pode beneficiar a população chinesa.

Em entrevista, Day declarou que a notícia de que o Google estava trabalhando no projeto Dragonfly não a chocou. “Eu posso ver que o resultado final para qualquer corporação é o crescimento, e [a China] representa um mercado gigantesco. É uma empresa gigante e seu objetivo é ganhar dinheiro”, pontuou.

Leia a carta dos funcionários do Google na íntegra:

Assine esta carta

Para fazer escolhas éticas, os Googlers [funcionários da empresa] precisam saber o que estão construindo. Agora, nós não sabemos. Então, nós, abaixo assinados, pedimos um código amarelo (1) sobre ética e transparência no Google.

Nossa indústria entrou em uma nova era de responsabilidade ética: as escolhas que fazemos são importantes em escala global. No entanto, a maioria de nós só soube do Project Dragonfly através de reportagens veiculadas no início de agosto. 

Dragonfly é um esforço para fornecer resultados de pesquisa e notícias personalizados para a China, em conformidade com os requisitos de censura e vigilância do governo chinês. Oito anos atrás, quando o Google retirou pela primeira vez a sua versão censurada da China, Sergey Brin explicou a decisão, dizendo: “Em alguns aspectos da política do governo, particularmente no que diz respeito à censura, com relação à vigilância de dissidentes, vejo alguns sinais de totalitarismo.”

O Dragonfly e o retorno do Google à China levantam questões morais e éticas urgentes, cuja substância estamos discutindo em outros lugares.

Aqui, abordamos um problema estrutural subjacente: atualmente, não temos as informações necessárias para tomar decisões éticas sobre os nossos trabalhos, projetos e empregos. A decisão de construir o projeto Dragonfly feita em segredo, mesmo com os Princípios da IA, deixa claro que os princípios por si só não são suficientes. 

Precisamos urgentemente de mais transparência, um lugar à mesa e um compromisso com processos claros e abertos. Os funcionários do Google precisam saber o que estão construindo.

Diante desses problemas significativos, nós, abaixo-assinados, pedimos um Código Amarelo abordando ética e transparência e que as lideranças implementem um processo concreto de transparência e supervisão com seus funcionários, incluindo o seguinte:

1.     Uma estrutura de revisão ética que inclui representantes dos funcionários de postos e arquivos;

2.     A nomeação de ombudspeople [profissional contratado com a função de criticar e dar sugestões à contratante com o dever de agir imparcialmente para mediar conflitos e partes envolvidas] com significativa participação dos funcionários na nomeação;

3.     Um plano claro de transparência suficiente para permitir aos Googlers uma escolha ética individual sobre o que eles trabalham; e

4.     A publicação de “casos de teste ético”; uma avaliação ética dos projetos Dragonfly, Maven e Airgap GCP em relação aos princípios de IA; e comunicação e avaliações regulares, oficiais e visíveis internamente sobre quaisquer novas áreas de preocupação ética substancial,

Assinado,

(1) Um Código Amarelo é um processo padronizado na Engenharia para tratar de problemas críticos de negócios novos ou de longo prazo que abrangem vários grupos. Um Código Amarelo inclui: um executivo responsável pelo processo, um proprietário geral, uma lista clara de objetivos a serem resolvidos antes de fechar o Código Amarelo e atualizações semanais (ou mais frequentes) para qualquer parte interessada.

Vale ressaltar que diversos sites de notícias pediram um esclarecimento sobre a versão censurada do Google, mas a empresa respondeu dizendo apenas “que não comenta sobre especulações e planos futuros”.



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