O fone mais caro do mundo

“Eu não aguentava mais”, disse o japonês Takeo Morita, de 82 anos. Ele tinha um aparelho de som sofisticado e caríssimo. Mas estava insatisfeito, e fez algo insólito: instalou o próprio poste de energia elétrica, no quintal, só para alimentar seus equipamentos. Morita é um “audiófilo”: pessoa disposta a fazer de tudo para ouvir música com o máximo de qualidade. Quem gosta de carro sonha em guiar um Fórmula 1. Os audiófilos sonham em escutar o aparelho mais perfeito do mundo. E ele está bem na minha frente.

Trata-se do HE 1, um conjunto de amplificador e fones de ouvido criado pela empresa alemã Sennheiser (que tem 2.800 funcionários e fatura 600 milhões de euros por ano). O aparelho é formado por 6 mil componentes, que levam 400 horas para serem montados. Seu desenvolvimento consumiu quase dez anos, e ele foi projetado para mostrar o que os alemães são capazes de fazer – com uma combinação de tecnologias radicais e materiais exóticos.

Mesmo tocando música em volume altíssimo, 100 decibéis, o sistema gera apenas 0,01% de distorção. Isso é centenas de vezes menos do que qualquer caixa de som, e cinco vezes menos do que o fone japonês Stax SR-Omega, que foi lançado na década de 1990 e era o mais sofisticado de todos os tempos. Desde que foi lançado, em 2016, o HE 1 se tornou uma lenda entre os audiófilos, inclusive pelo preço: 55 mil euros. No Brasil, onde acaba de chegar, custa US$ 94 mil (R$ 350 mil). O valor de um apartamento. Mas a empresa diz que já existem seis interessados por aqui.

Numa caixa acústica ou em um fone comum, o som é produzido por um cone de papel ou pedaço de plástico, que vibra para movimentar o ar. O HE 1 é diferente. Ele usa duas placas de platina com 2,4 micrômetros de espessura, 30 vezes mais finas que um fio de cabelo. Esse metal foi escolhido porque é leve e rígido, ou seja, não ressoa nem se deforma como o papel e o plástico (que inevitavelmente causam distorções no som). E também por outra característica: ele suporta voltagens muito elevadas.

É que os fones são alimentados com nada menos que 650 volts. É o suficiente para matar, impressiona e assusta, mas não há perigo: apesar da voltagem altíssima, a corrente elétrica é de baixa amperagem (intensidade) e fica isolada dentro do fone. Ela é despejada nas placas de platina, que ficam com eletricidade estática – e, por isso, passam a ser atraídas ou repelidas por outros objetos eletricamente carregados. No caso, dois eletrodos de ouro, que puxam e empurram as placas, gerando o som.

1. Fones de ouvido
2. Caixa com tampa automática
3. Base de mármore de Carrara
4. Válvulas amplificadoras
5. Controles (volume, fonte, on/off)

Para quem não é ultrarrico, e nunca terá como comprar um HE 1, ele inspira curiosidade, admiração e, veja você, até receio. Ao chegar à sucursal da Sennheiser em São Paulo, onde vou passar uma tarde com o sistema, dois funcionários contam histórias opostas. Um deles confessa ter ficado vários dias grudado aos fones, sem trabalhar, totalmente hipnotizado. O outro diz que não quis escutar o HE 1, por medo de ficar obcecado e não conseguir mais ser feliz com fones de ouvido “comuns”.

Penso nisso enquanto conecto meu notebook, com um cabo USB, ao sistema (que também está plugado a um CD player). O amplificador é um bloco de mármore – material escolhido porque barra qualquer interferência eletromagnética –, com um compartimento para guardar os fones. Ligo o aparelho, e os botões, até então embutidos no painel, se projetam lentamente para frente. Uma tampa de vidro se abre, revelando os fones de ouvido – que, graças a um mecanismo oculto, se inclinam para cima. Por fim, o mais impressionante, oito válvulas emergem e se acendem.

As válvulas eletrônicas se tornaram obsoletas com a invenção do transistor, em 1947, mas até hoje são usadas em amplificadores de áudio, porque produzem um som mais natural e encorpado. Dois minutos depois, o HE 1 acende uma luz indicando que seus circuitos estão aquecidos e estabilizados. Ele está pronto.

Coloco os fones e a primeira sensação é… absolutamente nenhuma. Não sinto o menor peso ou pressão na cabeça, e consigo ouvir os barulhos da sala onde estou. Nem parece que estou usando fones de ouvido. Isso acontece porque, ao contrário dos modelos mais comuns, o HE 1 é aberto. Ele deixa escapar o som que as placas de platina produzem ao se mover para trás (nos fones fechados, esse som fica reverberando e distorce a música). O efeito colateral disso é que o fone vaza bastante som, e também deixa ruído ambiente entrar. Não chega a ser um problema: ele foi projetado para uso em casa ou num escritório com porta fechada (quem tem R$ 350 mil sobrando certamente trabalha em um).

Começo ouvindo um CD de demonstração, com gravações de vários estilos e épocas, que a própria Sennheiser produziu para destacar as qualidades do fone. Tem Mozart, Ray Charles, AC/DC, White Stripes, Adele. Começo por uma faixa que escutei trilhões de vezes durante a vida, e por isso normalmente não me causa qualquer reação: Michael Jackson, “Thriller”.

Uau. Não é como se o finado Michael estivesse do meu lado. É como se ele tivesse 10 metros de altura, fizesse parte de uma alucinação auditiva bizarra – e ao mesmo tempo incrivelmente real. Os fones simplesmente desaparecem, e a sala onde estou também. O som parece emanar de algum lugar infinito, que vai ficando maior conforme aumento o volume. A música parece ter sido gravada ontem, não em 1982, e tem centenas de detalhes que eu nem sabia que existiam. Quando ela termina, ouço todas as outras faixas do CD, cada vez mais impressionado com a perfeição e a intensidade do som: as guitarras parecem relâmpagos, as vozes queimam como fogo, a bateria tem o impacto de um soco do Mike Tyson. Em músicas ao vivo, fecho os olhos e realmente tenho a sensação de estar no show, com a diferença de que o som é muito melhor (as caixas acústicas usadas nas apresentações produzem muito mais distorção do que o HE 1).

Talvez você esteja pensando que tudo isso é sutil, só perceptível por iniciados, que o seu ouvido não captaria, etc. Muito pelo contrário. A diferença é avassaladora, inclusive em relação a equipamentos sofisticados (o meu sistema de fones de ouvido, que fui montando ao longo da vida e custou alguns milhares de reais, não chega nem perto). É como se você tivesse assistido televisão a vida inteira e fosse, pela primeira vez, a um cinema. Uma experiência e tanto.

Ao terminar o CD, estou até meio ofegante. Descanso um pouco e começo o segundo round, com minhas músicas preferidas. O efeito não é o mesmo. O som é detalhado e irrepreensível, mas não tem a mesma força incendiária – porque, como a grande maioria das músicas, aquelas faixas não foram tão bem gravadas e mixadas por seus produtores. Vasculho minha coleção musical, hora após hora, tentando reencontrar a sensação maravilhosa do início. Às vezes consigo, mas nem sempre. Num momento em que não há ninguém perto, toco uma playlist com as faixas mais populares do Brasil. Algumas surpreendem (até funk rasgueira, quem diria, pode ser bem gravado), outras não.

O dia termina, e meu tempo com o HE 1 também. Desligo o aparelho e as válvulas se apagam, os botões se retraem, o compartimento dos fones se fecha como um sarcófago. Vou embora e fico três dias sem escutar música. Quando finalmente ouço, tenho uma surpresa boa: consigo ser feliz sem os fones de ouro. Ainda penso muito neles, acho maravilhoso que existam, sou grato por ter podido testá-los. Mas agora entendo a real dimensão da experiência. Ouvir o HE 1 é como saltar de paraquedas: altera a sua percepção da realidade, muda você para sempre. Não é algo que você precise fazer todo dia. Mas é bom fazer uma vez na vida.

Como os fones funcionam

  1. O amplificador envia 650 volts de eletricidade para uma placa de platina, que fica dentro do fone de ouvido e tem 2,4 micrômetros de espessura (30 vezes menos do que um fio de cabelo).

  2. A placa fica carregada com eletricidade estática – e passa a atrair ou repelir outros objetos eletricamente carregados.

  3. Os sinais elétricos que contêm a música são enviados para dois eletrodos de ouro.

4. Um eletrodo é carregado com os sinais positivos – e, por isso, empurra a placa. O outro recebe o sinal negativo, e puxa a placa. Ela se move, gerando som.



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