Por que uma cripto do Facebook pode mudar para sempre o mercado de blockchain?

Não são apenas os escândalos de vazamento de dados que irão definir o 2018 do Facebook, e uma reportagem da Bloomberg aponta que a empresa está pronta para entrar no mercado das blockchains com a criação de sua própria stablecoin

Em maio deste ano, a empresa anunciou a criação de uma divisão de blockchain, mas desde então não foi revelada nenhuma informação concreta sobre o trabalho dela. A reportagem da Bloomberg publicada nesta sexta-feira (21) traz as primeiras informações com algo mais substancial do que rumores e especulação, e afirma que a esta divisão do Facebook tem trabalhado na criação de uma stablecoin que permitirá que os usuários façam transferências monetárias utilizando o WhatsApp, e que o foco inicial do serviço será no mercado indiano.

Caso lancem mesmo sua própria stablecoin, a divisão que está sendo comandada por David Marcus (ex-CEO da PayPal e da ex-diretor da empresa de troca de criptomoedas Coinbase), tornaria o Facebook automaticamente a maior empresa a atuar no ramo de blockchain do mundo. Isso não apenas considerando valor de mercado (atualmente em cerca de US$ 376 bilhões) mas também em base de usuários, já que a empresa possui 2,2 bilhões de usuários em sua rede social principal, 1,5 bilhão de usuários no WhatsApp e mais 1 bilhão de usuários no Instagram.

Com o aumento da popularidade a partir do segundo semestre deste ano, as stablecoins são criptomoedas que se distinguem das mais conhecidas (como o Bitcoin) é que elas estão atreladas a uma moeda fiduciária, o que as torna imunes às flutuações malucas que moedas como o Bitcoin vem sofrendo nos últimos anos.

Isso permite que essas moedas sejam usadas não apenas como um tipo depósito de confiança para a compra futura de Bitcoins sem enfrentar as burocracias existentes em uma transação bancária, mas também se torna uma forma mais estável de transferir criptomoedas sem ficar sujeito às diferenças de preço existentes entre um país e outro.

Mas, apesar da premissa simples, existe ainda um grande desafio que as stablecoins precisam superar: até o momento, nenhuma empresa teve sucesso na criação de uma moeda de confiança desse tipo.

A Tether, o maior projeto de uma stablecoin existente até agora, tem sido alvo de preocupação do mercado, já que a organização por detrás da moeda nunca provou que possuía a moeda fiduciária necessária para manter o valor de seus tokens virtuais. Outros projetos de stablecoin surgiram desde então, mas todos eles têm esbarrado no problema da verba necessária para evitar a flutuação de valor dos tokens, e a Basis, uma das maiores investidoras no novo sistema monetário e que levantou US$ 130 milhões para o investimento em stablecoins, anunciou o fim de suas atividades em dezembro deste ano por não ter conseguido um modo de garantir a segurança monetária de transações envolvendo as moedas digitais.

Por enquanto, o Facebook ainda não irá revelar detalhes do projeto, e quando perguntada sobre as informações conseguidas pela Bloomberg, a empresa se pronunciou apenas falando que tem explorado modos de utilizar a tecnologia de blockchain e que possui uma equipe pesquisando diferentes aplicações para ela, mas que no momento não há nenhuma novidade para ser compartilhada.

Apesar dos detalhes escassos, analistas acreditam que a criação de uma stablecoin pelo Facebook será mais uma jogada para mostrar que a empresa está por dentro da tecnologia do que realmente oferecer a moeda virtual de valor estável que os investidores tanto procuram.

A principal aposta é de que esse movimento será uma forma da companhia mostrar que tem condições de adicionar serviços de transferência financeira e vendas de produtos aos aplicativos de mensagem dela, como o WhatsApp. As fintechs são plataformas que têm crescido muito em mercados emergentes por ajudarem a superar os sistemas de crédito limitado destas regiões e, como o WhatsApp já implementou transações financeiras P2P na Índia, transformar essas transações em algo global é uma evolução que faz sentido.

Caso o projeto siga mesmo este caminho, o WhatsApp não seria o primeiro aplicativo de mensagens a abraçar o setor de blockchain — ainda que, ironicamente, os aplicativos que já fazem isso utilizam essa função justamente para se diferenciar dos apps de mensagens mais utilizados pelo público, como o Messenger e o WhatsApp.

Um desses aplicativos é o Kik, quem em 2017 criou seu próprio token (o Kin) e um sistema de blockchain para ajudar desenvolvedores de apps. A ideia fundamental do app é oferecer um método diferente de monetização, que se baseia na atenção e engajamento dos usuários ao invés da visualização de anúncios, e as receitas seriam todas pagas em criptomoeda Kin.

Outro aplicativo de mensagens a utilizar blockchains é o Telegram, que em 2017 levantou US$ 1,7 bilhões em um ICO (oferta inicial de moedas), mas que desde então tem se mantido em relativo silêncio após descobrirem que alguns investidores embolsaram parte do investimento antes mesmo de lançarem o produto no mercado.

Quem também tentou entrou no mercado de blockchain foi o aplicativo de mensagens Status, que em 2017 levantou US$ 100 milhões para o desenvolvimento de um aplicativo de mensagens com ecosistema de blockchain totalmente descentralizado, mas que desde então vem sofrendo problemas financeiros e este mês demitiu cerca de um quarto de seus funcionários.

Por enquanto, a única coisa que se sabe sobre a tentativa do Facebook de entrar neste mercado é que a equipe da empresa que tem trabalhado em aplicações de blockchain é bem pequena, contando com apenas 30 pessoas. Isso quer dizer que pode demorar ainda um pouco até termos notícias concretas sobre os avanços que a divisão de moedas virtuais da empresa conseguiu. No entanto, vale lembrar que o Facebook é uma das poucas empresas do mundo que possuem lastro suficiente para bancar uma stablecoin própria sem precisar se preocupar com investidores externos, então qualquer notícia nesse sentido que parta da companhia certamente será bem recebida pela comunidade.

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