Retrospectiva 2018 | O difícil ano para Mark Zuckerberg e o Facebook

Quando 2018 começou, Zuckerberg achou que seu principal problema do ano seria explicar para usuários e empresas de notícias as principais mudanças no feed de publicações. A batalha era por conta da exposição cada vez menor de páginas e modificar o caráter, até então, cronológico do feed.

Também passou a ter forte contraponto de celebridades da área. Por exemplo, Elon Musk, que do dia para noite resolveu apagar as páginas da Tesla e SpaceX. Ou o fundador do WhatsApp, Brian Acton, que sugeria que as pessoas deixassem suas contas na rede social por questão de segurança.

Nenhum destes contratempos foi mais preocupante do que o maior problema da história do Facebook — até agora.

Cambridge Analytica

No dia 17 de março, o Facebook anunciou que havia eliminado contas relacionadas a uma empresa chamada Cambridge Analytica. O motivo seria o vazamento de dados de 50 milhões de usuários da rede social, divulgado na época.

Foi então que uma reportagem do The Guardian revelou como a empresa trabalhava. A empresa era encabeçada por Aleksandr Kogan e Christopher Wylie. O primeiro era um pesquisador ligado à universidade de Cambridge. Já o segundo era um marqueteiro ligado a partidos liberais no Canadá e viu uma oportunidade de fazer dinheiro com big data.

Os dois levantaram informações por meio de um quiz no Facebook chamado ThisisYourDigitalLife. Tal questionário era justificado como uma pesquisa estritamente acadêmica para universidade, contudo, foi usado por Wylie para vender publicidade extremamente direcionada para campanhas políticas.

Christopher Wylie, marqueteiro do Cambridge Analytica (Foto: The Guardian)

Os dois principais casos da Cambridge Analytica foram as campanhas que elegeram Donald Trump, em 2016, e o apoio pela saída do Reino Unido da União Euopeia, evento conhecido como Brexit, em março de 2017.

Dessa forma, o caso Cambridge Analytica pode ser mais denominado como um uso indevido de dados do que vazamento de informações da plataforma. Isso porque o método de captação foi legal, mas a utilização não.

Dois dias depois, a rede social se pronunciou e contratou uma empresa de auditoria para investigar o caso internamente. O resultado desta análise foi divulgado no começo de abril, quando a empresa subiu para 87 milhões a estimativa de usuários que tiveram suas contas usadas para campanhas. O Brasil apareceu como o oitavo mais impactado: foram 443 mil contas compartilhadas pela Cambridge Analytica, o que representa 0,5% das informações totais.

Consequências e Senado

O escândalo jogou luz sobre questões de privacidade de uso de dados no Facebook. Com isso, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (Federal Trade Commission ou FTC, no original em inglês) decidiu investigar o Facebook. Desde então, veículos de mídia passaram a jogar luz sobre como o Facebook criava perfis de usuários usando seus dados. A própria rede social informou que pode criar um banco de dados de pessoas que nem mesmo têm uma conta na rede social.

O ponto mais alto das consequências foi o convite para Zuckerberg comparecer a duas reuniões no Congresso norte-americano. Em carta, ele assume que o Facebook errou e que houve uma carta de crédito para que a Cambridge Analytica apagasse os dados, o que o CEO também considerou um erro.

“Foi um erro meu e peço desculpas. Eu comecei o Facebook, gerencio e sou responsável pelo que acontece aqui. Está claro agora que não fizemos o suficiente para prevenir estas ferramentas de serem usadas para danos. O mesmo vale para as notícias falsas, interferência estrangeira em eleições e discursos de ódio, assim como desenvolvedores e a privacidade de dados”, finaliza.

Zuckerberg em audiência no Congresso norte-americano (Foto: Captura/YouTube)

Outra consequência importante foi a mudança na visão europeia de como empresas precisam lidar com informações. A região criou General Data Protection Regulation (GDPR ou Regulamento Geral de Proteção de Dados), conjunto de regulamentações que passou a valer em maio deste ano. O bloco de leis tem a proposta de dar mais ferramentas para que o usuário tenha noção de quanto e como seus dados estão sendo utilizado por quaisquer empresas que possam coletá-los, mesmo que tenha sede fora da Europa.

O GDPR fez com que grande parte das maiores empresas do setor revissem suas políticas de segurança e uso de informações. Apesar de ter sido proposto há seis anos, o lançamento do GDPR logo após os problemas como Cambridge Analytica acentuou ainda mais a discussão.

Eleições

Passada a polêmica da Cambridge Analytica, a rede social se voltou a um outro inimigo comum: as eleições e como evitar que a plataforma influenciasse as campanhas de outros países, de novo. A rede social testou uma ferramenta no Canadá e na Irlanda com o objetivo de evitar que agentes de fora do país pudessem fazer campanhas para quaisquer candidatos. Ou seja, a proposta era internalizar o debate.

O primeiro teste seria no Canadá, e a ferramenta iria permitir que usuários pudessem ver todas as campanhas que aquela mesma conta estivesse produzindo, além de revelar de quem era a conta. Dessa forma, seria possível ver se um candidato, por exemplo, produziu peças publicitárias e que se contradizem, apenas para focar em um determinado público. O segundo, em um referendo na Irlanda.

Contudo, um grupo de jornalistas para a transparência do processo (TRI, na sigla em inglês) levantou que, mesmo assim, grande parte das campanhas vinha de fora dos locais de eleições.

Notícias falsas e Brasil

Outro grande problema da rede social no ano foi enfrentar um dos maiores desafios recentes: a publicação de desinformação, também chamada de fake news. O Facebook testou várias ferramentas durante o ano para combater este problema durante o ano. Só aqui no Brasil, por conta do pleito federal, o Facebook derrubou 280 páginas e 229 contas:

  • Em junho, o Facebook removeu 196 páginas e 87 contas;
  • Em agosto, este número foi de 74 grupos, 57 contas e 5 páginas;
  • Em setembro, o total é de 11 Páginas e 42 contas, associadas à empresa brasileira de marketing Follow;
  • Em outubro, Em outubro, nós removemos 68 Páginas e 43 contas associadas ao grupo brasileiro chamado Raposo Fernandes Associados (RFA).

Junto disso, a rede social também buscou parcerias com empresas de checagem de fatos, como Agência Lupa, Aos Fatos e Agence France-Presse (AFP), além de ter financiado uma iniciativa chamada de Comprova, em parceira com a colaboração de Abraji, Projor, Google News Initiative e Facebook’s Journalism Project.

Contudo, mesmo assim, Zuckeberg teve outro problema: o WhatsApp. A rede social, ao menos no Brasil, se tornou a principal plataforma para espalhar notícias falsas.

Queda de usuários e ações

Segundo uma pesquisa do Pew Research Center divulgada em setembro deste ano, 54% das pessoas mudaram suas configurações de privacidade na plataforma nos últimos 12 meses. Ainda, 42% deram um tempo da rede social por uma semana ou mais e ainda 26% deletaram o app do Facebook de seus smartphones. No total, 74% dos entrevistados disseram ter feito alguma destas ações citadas.

Em termos de ações, a empresa teve outro baque. Em junho deste ano, quando a empresa anunciou o resultado financeiro do segundo trimestre do ano, os números não agradaram nem um pouco aos acionistas. Isso resultou em uma queda das ações em 20% em um único dia, o que significa US$ 16 bilhões da fortuna do CEO.

O motivo do descontentamento, para além dos já citados aqui, é que a empresa não bateu a meta esperada para o período pela primeira vez na história, sinalizando desaceleração. Na mesma época, um grupo de investidores representando quase US$ 3 bilhões do total, buscou tirar Zuckerberg da liderança da companhia. Contudo, esta empreitada se mostrou um fracasso.

No fim, o Facebook fecha o ano em queda. A empresa começou o ano com papéis sendo negociados a R$ 295 e deve fechar 2018 com preços na casa dos R$ 260, uma queda perto de 12% no período.

Pode ter certeza que Zuckerberg deve fazer todas as mandingas possíveis para tirar estas urucubacas de 2018 de perto. Agora, resta aguardarmos para ver o que 2019 guarda para a maior rede social do mundo e seus mais de 2 bilhões de usuários.

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